A audição do feto – desde quando e o que ouve o feto?

O que vamos explorar neste artigo são os aspetos neurofisiológicos da audição humana durante a fase fetal da vida, ou seja o surgir da audição do feto, para fundamentar as atividades que serão propostas na continuação do trabalho.

A partir de quando o feto ouve? O que ele ouve? Como ele ouve? O que podemos fazer com esses conhecimentos? São as principais questões que norteiam o estudo.

A audição do feto

Descreverei uma sucessão de informações de interesse para esclarecer as questões.

Evolução da orelha até à 20º semana

Até à 20ª semana de gestação a extremidade medial do meato acústico externo está fechada por uma massa de células epiteliais.

Nessa semana há a maturação da orelha interna, sendo o único órgão sensorial a atingir uma completa diferenciação e tamanho adulto à altura da metade do desenvolvimento fetal.

A essa altura, as estruturas da orelha interna e média estão formadas e falta pouco para a ossificação. O plug meatal desfaz-se, expondo a membrana timpânica ao líquido amniótico.

Evolução na 21º semana – inicio da audição do feto

A 21ª semana gestacional marca o inicio da aventura sonora do bebé.

O aparato neurofisiológico necessário para que ocorra o fenomeno da excitação nervosa por intermédio das vibrações sonoras está suficientemente estruturado.

Não quero com isso dizer que a partir desse instante o feto passa a ouvir tudo, alto e claro. Não é assim que a natureza age. Mas é a partir daí que, gradativamente, surge a audição do feto.

Estabelece-se, então, o inicio da experiência no universo sonoro intra-uterino.

O bebé, ainda um feto de 21 semanas, tem 25 centímetros e pesa 250 gramas em média. Está imerso em líquido amniótico, dentro da bolsa das águas, dentro do útero materno, num ambiente extremamente rico em estímulos sonoros.

Os ossículos (martelo, bigorna e estribo) que transmitem as vibrações sonoras captadas pelo tímpano para o órgão de Corti, onde se dá a transformação de movimentos mecânicos em impulsos nervosos estão embebidos em mesênquima, um líquido de relativa densidade.

A pneumatização do funcionamento dos ossículos dá sinal por volta da 34ª semana, no entanto só é acelerado com a penetração de ar na orelha média, no nascimento.

O conteúdo aéreo da cavidade timpânica expande-se imediatamente após o nascimento com o início da respiração e a entrada de ar na orelha média.

Quando os ossículos se soltam do mesênquima, a membrana mucosa que liga cada ossículo às paredes da cavidade do ouvido médio permanece para finalmente se converter nos ligamentos de apoio dos ossículos.

Evolução concluida para a audição

Então vejamos. O feto humano já tem a estrutura neurofisiológica  auditiva capacitada para receber estímulos sonoros, no cérebro, na 8ª região cerebral, a partir da 21ª semana, ou seja é possível a audição do feto.

Ele está imerso em líquido amniótico, com os ossículos embebidos em mesênquima e não completamente ossificados e pneumatizados. Aqui é imprescindível acrescentar que na água o som se propaga a uma velocidade mais de quatro vezes maior do que no ar.

E também tenho que dizer que antes dessa 21ª semana, nós, enquanto fetos, não somos insensíveis aos sons. Alguns cientistas consideram a pele como uma extensão do ouvido durante a gestação.

As vibrações sonoras excitariam o tacto, que é anterior à audição do feto. O corpo da mãe que gera esse bebé é extremamente rico em estímulos sonoros.

Principais origens dos sons para o feto

Quais são as fontes desses sons? Enumerarei as principais:

  • O músculo cardíaco produz a pulsação rítmica, principalmente por uma artéria que passa por detrás do útero, e sons da circulação sanguínea periférica ao útero.
  • Os órgãos ocos (estômago e intestinos principalmente) produzem inúmeros sons, alguns audíveis até aqui fora do corpo.
  • Os movimentos peristálticos e os sons da digestão.
  • As articulações do esqueleto.

Imagine esse universo-sonoro… Importante também é informar que o nosso amiguinho feto não escuta estes sons do corpo da mãe, ininterruptamente. A natureza não permitiria.

Ciclo de sono do feto

O bebé em gestação tem um ciclo de sono e vigília característico: dorme, em média, de 18 a 20 horas por dia, em períodos indefinidos. Está em vigília, isto é, descobrindo as sensações que lhe são possíveis, apenas no tempo que lhe resta.

É dormindo que a criança cresce.

Gravações intraamnióticas feitas com equipamento especial – microhidrofones – detectaram os mais diversos sons, registando as suas intensidades e frequências.

A importância da voz humana

De todos os sons a que o feto está exposto, inclusive os sons externos em alta intensidade, o que se destaca pelas suas características acústicas particulares é o som da VOZ HUMANA.

Isso mesmo, quando a gestante fala, o som da sua voz sobressai de todo o ruído de fundo que chega ao feto. A voz que se aproxima do ventre materno, principalmente nas últimas semanas de gestação, também tem grande abrangência e alcance.

Com isto deduz-se que o feto humano ouve com especial destaque a voz da mãe e dos próximos a ela desde, praticamente, a metade da gestação…

Mas, analisemos mais detalhes sobre essa percepção tão importante.

O bebé em gestação ouve a voz da mãe nas suas  características particulares de ritmo, entoação, variação de frequências e timbre,

Mas não é possível distinguir a articulação das palavras (a não ser que se considere o bebé em gestação como um espírito que está reencarnando – mas isso merece um estudo mais aprofundado).

Para que se ouça a palavra articulada é necessário que haja ar entre o emissor e o receptor, o que não acontece com o feto. Ele está, como já vimos, no líquido amniótico. Mas já vimos também, que no líquido o som propaga-se com maior velocidade.

Então ele ouve a voz, mas não as palavras. Mas delicia-se com o timbre da voz da mãe e das suas características particulares que a diferem de qualquer outra pessoa. A nossa voz é como uma impressão digital sonora de nós mesmos. Só nós a temos.

Durante o tempo de gestação que tivermos depois da 21ª semana, o feto estará a experimentar paulatinamente o ambiente sonoro no qual viverá depois do nascimento, daqui há  algumas semanas.

O som é o cartão de visita da vida

Então, é pelo som da voz da mãe e dos próximos a ela que temos o primeiro contato com o ambiente em que nasceremos. A memória começa a estabelecer-se a partir desta data.

Fernando de Oliveira Pereira (Musicoterapeuta)

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5 Comentários

  1. Li o texto e achei bastante interessante. Me interesso pelo assunto.
    Para fins de pesquisa, gostaria de saber quais são as referências das informações apresentadas. Aos menos, as principais referências. Quais pesquisas serviram de base? Como posso ter acesso a elas ou aos pesquisadores?

    Aguardo retorno e agradeço desde já.

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