A tecnologia que deteta bebés sem oxigénio

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Omniview-sisporto
Omniview-sisporto

O software Omniview-SisPorto desenvolvido pela Universidade do Porto é usado por 14 maternidades portuguesas. É um alerta computadorizado e automático para situações de oxigenação deficiente do feto, e acredita-se que já esteja a salvar vidas em várias salas de parto na Europa.

No Hospital de São João, no Porto, o primeiro do país a adotar a tecnologia Omniview-sisporto, os resultados são optimistas: desde 2003 – ano em que os investigadores começaram a utilizar o software Omniview-SisPorto – o número de bebés que nascem com baixa oxigenação grave caiu, em média, para metade. Porém, não foram estes números que em 2009 chamaram a atenção dos especialistas internacionais: um estudo global feito a partir de registos clínicos concluiu que os alertas detectam com segurança 100% dos casos de baixa oxigenação, embora produzam 7% de alarmes falsos.

O trabalho foi distinguido como um dos mais relevantes pela revista da especialidade “American Journal of Obstetrics and Gynecology” .

Por detrás do Omniview-sisporto estão sete investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e do Instituto de Engenharia Biomédica (INEB) – três clínicos e quatro engenheiros. “É um programa de computador que analisa os sinais do bebé, do feto, nomeadamente a frequência cardíaca e as contrações uterinas. E faz uma leitura automática desses sinais, dando alertas aos profissionais de saúde cada vez que há alterações sugestivas de uma oxigenação deficiente do bebé”, explica ao i Diogo Ayres de Campos, um dos investigadores responsáveis pelo Omniview-SisPorto.

Ao longo de 20 anos, esta equipa procurou os algoritmos necessários para produzir alertas com segurança, que podem ser utilizados nas salas de parto para antecipar complicações por má oxigenação do feto. “A monitorização é geralmente feita durante todo o trabalho de parto e também ao longo do último trimestre da gravidez, sobretudo em gestações de risco”, adianta o investigador português.

Esta tecnologia começou a ser comercializada, em 2005, por uma empresa de artigos médicos sedeada em Lisboa, a Speculum. Hoje já é utilizada em 14 maternidades nacionais, que o investigação prefere não revelar, mas também em blocos de parto de países desenvolvidos como a Dinamarca, Holanda, Reino Unido, Suíça, Israel.

Segundo o responsável, o custo de implementação, que não inclui os aparelhos de aquisição dos sinais, que à partida já são utilizados nos blocos de parto, anda à volta dos 20 mil euros.

Em países como Israel e Reino Unido, e ainda através de uma parceria com a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, está a ser desenvolvida uma nova investigação para consolidar o sistema. “Não basta ser inovador, é preciso demonstrar que as inovações têm interesse para a prática da medicina”, defende.

Melhores do mundo Em Março do ano passado, os dois obstetras do grupo, Ayres de Campos e João Bernardes, foram considerados pela comunidade científica online BioMedExperts os melhores do mundo no campo da cardiotocografia, a monitorização contínua da frequência cardíaco do feto e das contracções uterinas da grávida.

Ayres de Campos sublinha que, neste momento, são dos poucos a trabalhar nesta área, além de serem o único grupo em Portugal. “Os grandes desafios advêm do facto de os sinais da frequência cardíaca do bebé, que foram introduzidos na rotina por volta dos anos 60, serem muito complexos. Há muitos factores além da oxigenação que podem afetar a frequência cardíaca”, diz. “Houve outras equipas que tentaram che- gar a um protótipo, sem sucesso. O nosso único mérito foi não ter desistido, sublinha.

Para este ano os objectivos são de consolidação. Está previsto um estudo no Reino Unido para avaliar o número de vidas salvas. Para Portugal não existem dados, mas em Inglaterra as últimas estatísticas são de 2004 e revelam que metade das 512 mortes perinatais registadas estavam relacionadas com problemas de oxigenação. “Se em Inglaterra há 600 mil partos por ano, as estimativas para Portugal apontarão para um sexto destes valores”, antecipa Ayres de Campos.

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