Quando uma disfunção auditiva provoca o insucesso escolar

O seu filho é excessivamente distraído na escola, pede frequentemente para repetir as informações que ouve, tem dificuldade em acompanhar uma conversa quando muita gente fala ao mesmo tempo? Fique atento porque pode sofrer de Perturbação do Processamento auditivo (PPA).

A disfunção é facilmente confundida com dificuldades de aprendizagem e falta de inteligência ou problemas de comportamento uma vez que tem implicações no quotidiano escolar da criança.

Segundo as estatísticas da associação americana ASHA (American Speech-Language-Hearing
Association), que estuda os processos da fala, linguagem e audição, cerca de 5% das crianças
em idade escolar sofre de perturbação do processamento auditivo. A PPA é uma disfunção que
ocorre no sistema auditivo e impede a capacidade de analisar e interpretar os sons.

As estruturas do cérebro que os interpretam e hierarquizam desenvolvem-se nos primeiros 13
anos e caso o sistema não seja devidamente estimulado, origina um mau funcionamento das
vias auditivas.

Apesar de apresentar uma audição normal, existem sinais clássicos no comportamento de
uma criança com PPA, tais como:

  • Mostra-se excessivamente distraído; presenta reacções exacerbadas aos sons intensos;
  • Tem dificuldade em acompanhar uma conversa quando várias pessoas falam ao mesmo tempo;
  • Tem dificuldade em localizar a origem dos sons;
  • Tem dificuldade em pronunciar o “r” e o “l”;
  • Tem dificuldade em escutar/entender num local muito ruidoso;
  • Solicita a repetição de informações auditivas;
  • Tem dificuldades na aprendizagem (especialmente nas disciplinas de Matemática e Português);
  • Gaguejar ao falar;
  • Tem comportamentos sociais inadequados: muito agitado ou, pelo contrário, quieto demais, isolando-se.

Esta disfunção prejudica também a fala da crianças, uma vez que os processos de linguagem
desenvolvem-se ao mesmo tempo que os da audição. Com efeito, uma criança não pode aprender a falar bem se não souber lidar com os sons. A leitura também acaba por ser afetada.

Ao realizar um esforço permanente para ler um texto, a criança não consegue focar-se na leitura porque os sons advindos do ambiente à sua volta geram desatenção. Daí a criança ser muito distraída.

Cristiane Nunes, terapeuta da fala e audiologista, encontra-se no país desde Maio de 2008 a fazer o doutoramento em Saúde Infantil e já fez cerca de 100 avaliações, exercendo a sua atividade em Braga e Lisboa. Durante as pesquisas para o seu trabalho, e no convívio com as escolas e pais de crianças com PPA, Cristiane apercebeu-se que no quotidiano escolar, a perturbação  do processamento auditivo  é  facilmente confundida com problemas de comportamento, falta de inteligência ou até mesmo dificuldades de aprendizagem. A falta de estímulos sonoros durante a infância normalmente está na origem desta disfunção.

No entanto, os especialistas apontam outras causas:

  • Histórico de otites frequentes na primeira infância;
  • Alterações neurológicas, como doenças degenerativas ou epilepsia;
    Problemas alérgicos respiratórios, como sinusites e rinites;
  • Baixo peso ao nascer;
  • Permanência na incubadora;
  • Problemas congénitos, como sífilis, taxoplasmose, rubéola ou herpes;
  • Perda auditiva neurossensorial nos primeiros anos de vida.

Ao apresentar a disfunção, a criança é encaminhada para o terapeuta da fala, que realiza atividades específicas de treino auditivo. Durante o tratamento ainda podem ser envolvidos outros profissionais de No entanto, os especialistas apontam outras causas:várias áreas, como professores, neuropediatras e psicólogos. O acompanhamento psicopedagógico da criança pode ser importante no processo, uma vez que em casos graves os maiores danos verificam-se ao nível da auto-estima. Geralmente as crianças sentem-se incapazes e ansiosas, tornando-se por vezes agressivas para com os seus companheiros ou têm tendência a isolarem-se.

A probabilidade de sucesso do tratamento é elevada quando a disfunção é diagnosticada atempadamente, o que já é possível a partir dos seis anos. Cristiane Nunes considera que “ainda há pouca informação dirigida à população e poucos profissionais em Portugal com experiência na área, para avaliarem e tratarem indivíduos com perturbação do processamento auditivo, uma realidade que aos poucos promete mudanças”.

Portugal começa assim a dar os primeiros passos nos estudos da Perturbação do Processamento Auditivo (PPA). Esta disfunção, internacionalmente reconhecida, tem vindo a ser investigada e discutida nas últimas décadas em diversos países como os EUA, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Argentina e Brasil.

Para Cristiane Nunes, diretora clínica do Gabinete Arte de Comunicar, este tema ainda é pouco conhecido, o que torna o seu diagnóstico raro. “É preciso desvelar o grau de conhecimento sobre o processamento auditivo em Portugal e ao mesmo tempo oferecer uma oportunidade para a mudança de paradigma e
juízo acerca do tema”, afirma a audiologista.

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