Um amigo verdadeiro

Sempre que Carlos sai de casa, esquece-se de alguma coisa. Quando se lembra, já é tarde demais. E o que é que Carlos faz? Absolutamente nada. Só pensa: “Ainda bem que tenho o Pedro”.

O Pedro é o seu melhor amigo, um amigo a sério, um amigo com quem se pode contar.

O Carlos sabe muito bem o que é um amigo com quem se pode contar. Sempre que ele se esquece de alguma coisa, é o Pedro que o livra de apuros. O Carlos vai para a escola sem ténis.

— Logo vi que ias esquecer-te! — diz o Pedro, tirando um par de meias grossas do saco de ginástica, que entrega ao Carlos.

O Carlos chega ao parque sem bola.

— Logo vi que ias esquecer-te!

O Pedro tem escondida atrás das costas a sua própria bola, que lhe estende. O Carlos vai com o Pedro à feira popular e não leva dinheiro na carteira.

— Logo vi que ias esquecer-te! — E como não se pode andar no carrocel sem pagar, o Pedro tira uma moeda do bolso.

E é assim dia após dia: o Carlos esquece-se sempre de alguma coisa, o Pedro, nunca… ou será que não?

Não. O Pedro esquece-se sempre dos lápis de cera. Não adianta esforçar-se por fazer a pasta a tempo e horas. Quando chega a aula de desenho, o Pedro não tem os lápis de cera na pasta.

O Carlos sabe que o Pedro se esquece sempre deles, e por isso ele, Carlos, pode esquecer-se de tudo o que há no mundo, só não se esquece dos lápis de cera.

Estão na aula de desenho. O Carlos tira os seus lápis da pasta e põe-nos em cima da carteira. O Pedro volta a ficar corado de vergonha porque deixou os lápis em casa, no quarto.

Então, o Carlos sorri e tira da pasta outra caixinha de lápis de cera, que pousa em cima da carteira do Pedro.

— Logo vi que ias esquecer-te! — diz ele a sorrir.

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