Crianças sobredotadas: exames interditos

O Ivan é alto, bonito e simpático. É de luas, tanto está receptivo para o trabalho e faz tudo bem num instante, ora vem do contra e não olha ninguém de frente, resmunga entre dentes e fulmina tudo com olhos duros e fugidios.

Acabou de completar 16 anos. Anda no 6º ano pela 3ª vez e não se sabe se irá passar.
Veio há cerca de um ano, atordoado com o calvário de ter de andar a procurar um local para continuar os estudos. Na escola, sempre a mesma, concluiram que não sabiam o que fazer com ele. Era o rei das faltas, do mau comportamento e para culminar enredara-se numa luta com um colega que meteu polícia. Repetente, enviaram-no para a um local onde só viu jovens deficientes mas na aplicação de testes verificaram que o Ivan até tinha capacidades. Mandaram-no então para a equipa de reinserção social que por sua vez nos contactou pedindo colaboração e que vissemos o jovem.

Num dia quente de verão, a suar (e tresandar) lá entrou o Ivan (não era o terrível, mas quase) pois iniciou os testes desconfiado e mal-humorado, mas foi amansando, denotando insegurança, ferrugem no pensamento, potencial mal estimulado e pessimamente orientado. Por entre a torrente de palavras que em ânsias jorrava em tom altíssimo, lá se apercebia riqueza de vocabulário e reflexão sobre temas interessantes. Não era tolo o rapaz. Mas estava convencido (ou convenceram-no) que era burro.

?Falo alto porque ninguém me ouve!!?, justificava-se. Bem, no final da 1º semana de trabalho, já se podia conversar com ele normalmente.

Voltar às aulas era impensável. Entravam todos, professores, colegas e ele próprio em transe, pelo que se optou por deixar acabar o ano lectivo mais meia dúzia de semanas e trabalhar com ele no gabinete.

O Ivan melhorou rapidamente e mostrou-se disponível, se bem que a medo, para avançar nas matérias. Vieram as férias.
No início do terceiro 6º ano, entrou cheio de motivação, nas primeiras semanas parecia outro. Mas foi sol de pouca dura. A turma muito infantil, o desfasamento etário e físico, a humilhação perante miúdos de 11 anos que eram mais espertos, rápidos e eficazes, deitaram o Ivan por terra e os esforços até então alcançados foram por água abaixo.

No Natal choviam as queixas. Em reuniões com a direção, equipa de apoio, director de turma, sensibilizamos os professores e o aluno assumiu mais responsabilidade, empenhou-se, mas dentro da turma tudo voltava ao mesmo.

Se tanto se questiona, desnecessariamente, a aceleração na aprendizagem, com o argumento de que as diferenças etárias podem ser traumatizantes para a criança mais nova o que está provado em diversos estudos não ser verdade por que razão não se clama contra estas mesmas diferenças etárias dos alunos que reprovam, e que sendo, pelo menos teoricamente, mais reguilas, mais sabidos, mais experientes nas artes de comportamentos disruptivos, se tornam perniciosos? É que o reprovado tende a reincidir e causa tanto mal à turma como fermento estragado em gamela de massa pronta a ir ao forno.

Por que motivo não se permite uma maior flexibilização destes alunos na escolaridade?

Há alunos que não suportam estar fechados em salas de aula. Ponto final.
Para quê torturá-los e torturar os colegas e esgotar as energias dos professores e dos pais?
Por que não podem propôr-se ou ser propostos para exames nacionais de qualquer ano?
O Ivan tem 16 anos. Muitos alunos terminam o 9º ano com 14 ou 15 anos e alguns até o 12º nessa idade.

Por que não permitir ao Ivan que se apresente a exames do 9º ano sem ter completado o 6º Se afinal as matérias se repetem e para completar o 9º terá de ter adquirido as do 6º Para quê tanta burocracia se um aluno que acelera na escolaridade até pode passar directamente do 5º para o 7º , engolindo o 6º?

O Ivan está muito motivado para a possibilidade de fazer o 9º ano em Julho e assim, recuperar o tempo perdido e poupar-se, em 3 anos, à seca de estar na turma com colegas muito mais novos!

A legislação actual não permite.
Por que não dar esta oportunidade aos alunos que não se enquadram numa sala de aula? Por que razão se há-de obrigar o aluno a abandonar a escola, que é o que forçosamente irá acontecer ao Ivan, que até pretende ser biólogo?

Que mal lhe poderá acontecer, se na pior das hipóteses voltará ao ponto de partida Mas, entretanto, há toda uma motivação intrínseca que se recuperou e uma auto-estima que se guinda.

Deixem-me, por favor, provar que era uma solução para o Ivan e para muitos casos semelhantes ao dele!!!

Manuela Freitas

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